Deixe-me apresentar… me chamo Vitor, nasci e morei no Brasil quase toda a minha vida e imigrei ao Canadá em Agosto de 2023. Atualmente, sou um dos experts associados ao Instituto Nacional do Esporte do Québec (Instit national du sport du Québec - INS) para o projeto "Inovar além do NCCP". Entre as minhas tarefas, eu acompanho os CDEE, sim, os Conseiller·ère au Développement de l’Entraineur·e et son Environnement (Consultor de Desenvolvimento do Treinador e do seu Ambiente). Eles são formadores de treinadores espalhados pelo Québec para auxiliar treinadores de qualquer modalidade a superar os desafios particulares vivenciados em cada uma das regiões. Os CDEE não dão cursos, eles organizam atividades de interação em grupo ou até acompanhamentos individuais, todas voltadas à ouvir os treinadores, promover a troca de ideias e experiências com o intuito de auxiliá-los a se desenvolverem e atingirem os próprios objetivos. Agora, se eu te disser que esse trabalho é oferecido GRATUITAMENTE aos treinadores do Québec, você acredita? Pois é, eu também não acreditei a primeira vez que ouvi.
Em Abril de 2025, eu tive a oportunidade de fazer uma viagem de 7 dias e aproximadamente 2.000 km de carro pelo Québec para encontrar presencialmente alguns dos CDEE, assistir uma de suas atividades de aprendizagem com os treinadores e lhes oferecer um suporte individualizado. Eu sabia que viajar pelo Québec e participar das atividades seria particularmente interessante para mim, pois além de vir de um outro país, no Brasil, a atuação do treinador é uma profissão, o que faz com que praticamente não existam treinadores voluntários e é preciso ter um diploma universitário em Educação Física ou Esporte para poder trabalhar. Nos próximos parágrafos quero contar um pouco da experiência de viajar de Gatineau à Baie-Comeau, encontrando alguns CDEE pelo meu trajeto e conhecendo um pouco mais do belo território e povo québecois.
Cidade do Québec
Em direção à Québec, noto as diversas placas com nomes de cidades relacionados à igreja: Sainte-Eulalie, Saint-Valère, Saint-Anne-de-la-Pérade, Saint-Raymond, entre outras. No Brasil, a influência da igreja católica também foi grande. Minha mãe, se chama Maria Eulália (Marie-Eulalie) inclusive. Após comer um chocolatine de dar água na boca em Lévis, me dirijo à Excellence Sportive Québec-Lévis para acompanhar uma atividade dos CDEE da região, Gab Vincent-Bouchard e JF Fortin. A atividade tinha como objetivo proporcionar reflexões aos treinadores sobre como foi a temporada do ano, quais tinham sido as principais conquistas e o que deveriam melhorar para a temporada seguinte. Com algumas anotações em punho para a reunião e direcionados pelas boas questões de Gab e JF, os treinadores fizeram reflexões e interações intensas. Um destaca os desafios com atletas, outro compartilha as pequenas conquistas mesmo depois de uma sequência de derrotas. Percebo o quanto o trabalho dos CDEE também é uma oportunidade para os treinadores reconhecerem o trabalho positivo que fazem além dos indicadores que são normalmente avaliados e que também se avaliam, ou seja, as vitórias e derrotas.

Saguenay
Sigo minha viagem pela bela estrada à Saguenay, passando pelas belas paisagens do Parc National de la Jacques-Cartier e da Réserve faunique des Laurentides. Após uma caminhada no final de tarde às beiras do rio Saguenay e experimentar uma ou duas cervejas das 500 opções de microbrasseries, vou à RSEQ no dia seguinte para acompanhar a atividade da CDEE Anne-Marie Fortin, responsável por Saguenay e Lac-Saint-Jean. A atividade de Anne-Marie me comprova uma coisa que normalmente acreditamos que é impossível: existem treinadores que estão dispostos e interessados em compartilhar! Um dos treinadores compartilhou que, ao entrar em contato com um treinador de outro clube para tirar algumas dúvidas sobre treinamento, foi ajudado prontamente. O treinador, ao oferecer ajuda, comentou: “Eu te ajudo porque sei que isso vai melhorar seus treinos e beneficiar seus atletas, o que, por sua vez, fará com que meus atletas se sintam ainda mais desafiados e motivados a treinar.” O outro exemplo ocorreu durante a reunião quando um treinador convidou os demais membros do grupo à assistir um de seus treinos segundos após Anne-Marie sugerir essa atividade como uma ótima oportunidade de reflexão e aprendizagem para todos. As vezes rotulamos todos os treinadores como muito fechados e desinteressados em compartilhar seus segredos, mas será que são eles mesmos que não querem ou nós que não damos uma boa oportunidade num ambiente seguro e direcionado para a colaboração e aprendizagem?

Côte-Nord
Ao terminar minha rápida passagem por Saguenay, passo pela estrada do Fjord de Saguenay rumo ao ponto mais distante de minha viagem… Baie-Comeau! Nesse dia, tenho um papel um pouco diferente, pois participo de um evento organizado pelos meus colegas da URLS Côte-Nord com uma apresentação sobre a temática que me especializei: como ensinar habilidades para a vida por meio do esporte. O evento também tinha a participação do CDEE da região, Marc-Antoine Roussel, que me presentou com um Grand-père au sirop d'érable feito pour seu pai. Uma delícia! Na sua apresentação no evento, percebo também que os CDEE não são apenas responsáveis por cada região, mas são vistos como parte delas. Por serem natos ou viverem naquela região, eles sabem exatamente as características e os desafios que os treinadores vivem. Por exemplo, Marc-Antoine sabe como os treinadores de Côte-Nord se sentem com a dificuldade que enfrentam para participar dos cursos de formação PNCE que dificilmente ocorrem na região e exigem o deslocamento à outras cidades, então ele começa a sua apresentação agradecendo a minha presença e o fato de eu ter dirigido até Baie-Comeau para participar do evento. Ao dizer isso, todos os participantes do evento se viram na minha direção e dão uma salva de palmas! As palmas e a maneira que fui recebido e tratado durante todo o evento me fez sentir acolhido, bem-vindo, em casa… Olha que para alguém que vem do hemisfério sul e estava mais o norte que já esteve em sua vida, se sentir em casa não é tão fácil assim.

Charlevoix
Deixo Baie-Comeau e pego uma longa estrada até Trois-Rivière… No caminho, entre um café do Tim Hortons e um abastecimento… Uma praia??? Vejo pequenas ondas quebrando em Saint-Siméon e imediatamente entro na cidade. Não é possível! Onda no Québec? Como venho de uma ilha no Brasil (Florianópolis) e de uma família de surfistas, fico incrédulo e ligo imediatamente para o meu pai, gritando: “Pai! Tá quebrando! Tem onda no Québec!”. Está chovendo, mas eu não ligo e saio do carro pra tirar uma foto para meus amigos do surf. Se tivesse uma prancha (e uma boa roupa de borracha) no carro, eu teria entrado naquela água! Pode ter certeza!

Trois-Rivières
Após a descoberta, sigo viagem à Trois-Rivière para acompanhar a atividade da CDEE da região, Isabelle Gagnon. Chego no local da atividade e enquanto ajudo Isabelle a organizar a sala, ela chega com um banquete preparado para os treinadores… ”la bouffe”, como dizia Isabelle, que sempre me ensina novas palavras em francês. Também aprendi “Zigidou” com ela. A atividade foi organizada a partir de uma apresentação de um consultor em performance mental, seguida de um momento de interação facilitado pela Isabelle. Entre uma mordida e outra, um treinador relata que recebeu reclamações das atletas pelo fato de cada uma seguir uma rotina pré-jogo diferente, o que fazia com que não iniciassem a partida conectadas. Ao perceber essa situação, ele reconheceu que não havia problema em cada atleta manter sua própria rotina, mas destacou que elas deveriam ser responsáveis por identificar o momento de encerrar as rotinas individuais e adotar uma rotina coletiva para começarem o jogo conectadas desde o primeiro minuto. Caso isso não acontecesse, o pré-jogo ia ser uma bagunça, um verdadeiro zigidou (né Isabelle?). Alguns treinadores se olham após ouvirem a ideia do treinador e dizem: “que baita ideia eu vou fazer isso também!”. O convidado e Isabelle seguiam dando suporte à discussão, respondendo algumas perguntas e fazendo outras para estimular que os treinadores aprofundassem ainda mais as reflexões. Vendo toda essa experiência se desdobrando na minha frente, eu penso: “O que mais esses caras querem? Comida boa, apresentação de um expert no assunto, conversas interessantes, ideias concretas, uma pessoa ali só para fazer boas perguntas e ajudar os participantes… TUDO DE GRAÇA? Fico feliz de saber que aqueles treinadores estavam vendo a importância do projeto CDEE e aproveitando tudo isso.

Drummondville
Com uma sacola cheia de comida que sobrou da atividade de Isabelle (eu disse que era um banquete), sigo para meu último encontro com um CDEE, Maxime Lemire, de Drummondville. Max está no seu primeiro ano no projeto e por uma dificuldade com a disponibilidade dos treinadores de sua região, resolvemos fazer uma reunião presencial ao invés de uma atividade com os treinadores. Acompanhados de um bom café, que eu como bom brasileiro aprecio bastante, Max começa nossa conversa me perguntando um pouco mais sobre minha vida pessoal, minha esposa, porque decidimos vir para o Canadá, etc. Eu, que estava pronto para entrar no assunto principal da nossa reunião, me deixo cair nessa tangente para contar um pouco mais sobre mim. Depois de uns 20 minutos conversando sobre nossas vidas pessoais, transitamos naturalmente para o assunto previsto para nossa reunião… e nossa, como isso foi importante! Fico feliz de saber que o Maxime se importa comigo além da nossa relação profissional e com certeza isso auxilia nossas interações nessa própria reunião e no futuro. Esse tipo de reunião e acompanhamento individualizado para saber mais sobre os desafios e experiências particulares é, inclusive, um dos tipos de atividades oferecidas pelos CDEE para os treinadores! A reunião segue por mais umas duas horas e tanto Max quanto eu saímos felizes e com diversas ideias sobre o que ele pode fazer em sua região… Como é bom encontrar as pessoas presencialmente!

Montréal
Finalizo minha viagem passando por Montréal para fazer algumas reuniões com meus colegas de empresa, Marc-André e Sarah-Lee. Retorno à Gatineau com diversos presentes que recebi durante minha viagem e já com saudades do que tinha vivido. Além das percepções e reflexões que já compartilhei ao longo desse texto, volto para casa pensando no seguinte:
- O projeto CDEE surge como uma forma de escutar e auxiliar os treinadores Québecoises. Diferentemente do Brasil, o trabalho dos treinadores no Québec (e no Canadá como um todo) é majoritariamente voluntário. Acredito que muitos se envolvem na atuação de treinador pela simples honra de manter o esporte vivo e para que mais pessoas possam ter a experiência de se desenvolver por meio dele. Por entender que muitas vezes o trabalho não é remunerado e que talvez existam mais desafios que recompensas, os CDEE buscam mostrar aos treinadores que eles não estão sozinhos e que existe alguém disponível para ajudá-los GRATUITAMENTE. É uma forma de reconhecer a dedicação incansável dos treinadores pelo Québec, que por muitas vezes colocam a própria família em segundo lugar para oferecer um treinamento de qualidade.
- Os CDEE falam a língua dos treinadores. Muitas vezes, em cursos e eventos, os treinadores são expostos à especialistas que utilizam uma linguagem rebuscada e científica, o que dificulta tanto a compreensão quanto o estabelecimento de laços de uma conexão entre ambos. Além de os CDEE adotarem uma linguagem mais informal e próxima dos treinadores, eles são vistos como membros daquela região. Ou seja, se trocarmos dois CDEE de região, mesmo mantendo as mesmas competências, talvez as atividades não sejam tão efetivas, porque eles não saberão as características particulares da nova região e talvez não sejam reconhecidos por seus membros. As atividades oferecidas no projeto permite com que CDEE e treinador não se tornem professor e aluno, mas colegas de aprendizagem, e o desenvolvimento dos treinadores ocorre de maneira interativa, reflexiva e como consequência de uma experiência positiva.
- Participar das atividades dos CDEE não é um caminho lógico para os treinadores. Por se tratar de um projeto relativamente novo e com uma proposta alternativa de aprendizagem, os CDEE ainda encontram desafios relacionados ao número de participantes em suas atividades. Mas também, o caminho natural do desenvolvimento de um treinador é colocar o boné de aluno e participar em cursos, não participar de atividades interativas, de um grupo de discussão ou ter um acompanhamento individualizado... Além disso, como já disse algumas vezes: de graça! Meu sonho é que o trabalho de qualidade que os CDEE já fazem será cada vez mais reconhecido pela comunidade de treinadores québecois e que eu receberei comunicações dos CDEE me dizendo: “Vitor, não tenho mais horários na minha agenda e tive que criar uma lista de espera para os treinadores da minha região! As atividades estão bombando!”.
Essa viagem me permitiu tanto visualizar na prática o impacto que o projeto CDEE pode ter no desenvolvimento do esporte quebecois, quanto perceber como a cultura québecois é mais próxima da cultura brasileira que eu pensava (ou que você pensa). A receptividade, a maneira de interagir e até as piadas que eu estou acostumado a ver no Brasil, pude ver em diferentes partes do Québec. Em Saguenay, a moça que me atendia no restaurante botou a mão no meu ombro para me perguntar se eu gostaria de pedir mais algo. No Brasil, a gente faz sempre isso, para nós é uma forma de mostrar afeto, carinho, atenção. Fico feliz de ter tido a oportunidade de conhecer mais um pouco do vasto território québecois e de ter escolhido essa província para chamar de casa.
Eaí, treinador québecois… Já entrou em contato com o CDEE da sua região hoje?





